Hora da morte: 00:30. Foi a hora cravada de sua morte. Não que as coisas fossem acabar por aí. Bem quando o último sopro de vida deixava seu corpo, um sabor quente lhe desceu pela garganta. Era amargo, espesso e pulsante. Ele não fazia idéia do que estava acontecendo, mas se agarrou àquela última esperança. Não de vida, mas de algo mais.
O gosto amargo foi aos poucos se tornando doce. Quase como um bom vinho, daqueles que devem ser degustados, e não simplesmente bebidos. E agora o líquido não simplesmente entrava em sua boca, mas precisava ser sugado, e ele o sugava. Aos poucos a frieza da morte se esvaía enquanto o líquido quente entrava, e um leve formigamento subia por suas pernas. Logo, teve forças suficientes para finalmente abrir os olhos.
Viu-a, debruçada por cima dele. Os louros cabelos ao vento enquanto seus verdes olhos cintilantes o fitavam com olhar interessado. O braço magro e de um branco quase reluzente esticado em sua direção. E ele se agarrava ao braço com toda sua força, sugando com sede voraz o que o retomava a vida. Se é que o seu destino pudesse ser chamado de vida.
Seu destino… Destino… Não que ele houvesse acreditado nisso alguma vez na sua vida, mas agora a ironia o entretia. Menos de dez minutos atrás ele era comum. Não totalmente comum, mas dentro dos padrões da normalidade. Ele era uma ovelha, e olha que imagem interessante se abria ante seus olhos, uma simples ovelha que seguia o rebanho, balindo e saltitando. E agora, bem, agora ele se tornava um lobo, sangrento algoz das pobres e perdidas ovelhas. Ele, que sempre havia sido a caça, com sua morte, tornava-se o mais feroz e letal caçador.
Ela se levantou com rapidez e puxou o braço com força e agora ele via o que havia lhe restaurado as forças. Uma marca vermelha no punho, o rubro do sangue contrastando com a brancura de sua pele alva. Ela pareceria um anjo, não fossem pelas presas à mostra e pelos olhos esmeralda que brilhavam com uma malignidade sobrenatural. Em poucos instantes a ferida em seu punho estava fechada. Quando isso aconteceu, ela simplesmente se virou e começou a caminhar, lentamente.
Ele estava instigado. Instigado e curioso. Ela caminhava em meio à escuridão da noite de lua nova, iluminada apenas pelas estrelas. Era realmente uma bela noite estrelada, mas ele possuía olhos apenas para ela. Tentou se levantar e descobriu, com surpresa, que possuía forças suficientes não apenas para levantar, mas também para caminhar até ela, que andava lenta e pacientemente como que se esperasse que fosse até ela.
- O que aconteceu?-perguntou ele ansioso.
- O que aconteceu você sabe. Sabe também o que é agora. Faça a pergunta que realmente deseja garoto, antes que eu me canse desse jogo estúpido.
- O que acontece agora?
- Agora, eu preciso lhe ensinar o que e como fazer. Isso se você tiver o dom e eu a paciência necessária para tal. Começou o jogo, garoto.
- Qual o seu nome? – perguntou ele, quando finalmente caminhou para o seu lado, não mais sentindo nenhuma dormência pelo corpo.
- Você pode me chamar de Adrienne.
- Bem, o meu nome é. D…
- O seu antigo nome não importa mais. Ou você pretende voltar a ser quem você era anteriormente?
- Não, nunca mais.
-Então, quando chegar à hora, receberá um novo nome. Um de verdade, que você tenha merecido e conquistado, e não apenas um símbolo da sua pífia humanidade. Agora venha, a noite é uma criança e você ainda tem muita coisa a aprender.
E ela continuou a andar envolta na escuridão, seu vestido negro e justo mesclando-se as sombras. E o neófito, fitando as costas e pescoço alvo andarem para longe dele, enquanto ele percebia que algo o incomodava. Uma sensação de vazio se apoderava dele, mas ele ignorava. Possuía olhos apenas para ela. Sua Ceifadora, Mestra e Senhora.